Psicologia é o estudo do comportamento humano. Uma ciência que começou como um ramo da filosofia, quando os cosmólogos iniciaram a busca pela compreensão de experiências místicas, eventos e atividades de indivíduos comuns. Analisar, descrever e interpretar experiências místicas, sonhos, impulsos e comportamentos são aspectos comuns entre psicologia e filosofias milenares, como aquelas que se relacionam ao yoga.
O termo psicologia, de origem grega, foi encontrado pela primeira vez em livros do século XVI. “Psique” com “logos” formaram a doutrina da alma. Sendo alma o princípio de todos os fenômenos da vida mental e espiritual.
Na Grécia, Aristóteles já admitia, ao questionar Platão – o progenitor do dualismo na psicologia -, uma unidade dentro da dualidade. Ele transmitiu a ideia da inseparabilidade da alma e do corpo vivo. Tal ideia muito tem a ver com a valorização do corpo, característica que permeia a filosofia tântrica e do hatha yoga.
Atualmente, existem diversas formas da psicologia exercer seu papel tais como, a psicanálise, a psicologia analítica, a terapia cognitiva comportamental, a terapia transpessoal; e diferentes linhas baseadas em grandes cientistas: Wilhelm Wundt, um dos percursores da psicologia, Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Wilhelm Reich, etc.
Freud foi o percursor da perspectiva psicodinâmica, que admite que o comportamento é motivado por uma série de forças internas. Ele enfatiza que a natureza humana nem sempre é racional e que as ações podem ser motivadas por fatores não acessíveis à consciência. Logo, desenvolveu conceitos de consciente, subconsciente e inconsciente. Descreve o aparelho psíquico através dos termos superego, ego e id.
Jung começou a desenvolver a psicologia analítica em reação à e sob influência da perspectiva psicodinâmica. Ele admite outros senões para consciente e inconsciente, admite inconsciente coletivo. Nos aprofundaremos, mais adiante, nos conceitos gerais da psicologia analítica, que valoriza conteúdos do inconsciente, experiências somáticas, misticismo e percepções do humano.
A busca pelo autoconhecimento, a temática expansão da consciência e a prática de diversas terapias produzem, na atualidade, um cenário inspirador para integrarmos conhecimentos místicos milenares à ciência contemporânea. Além da disciplina yoga ser mais amplamente compreendida com o auxílio da psicologia, é fundamental conhecer minimamente teorias que respaldam a relação interpessoal entre praticantes, yoguis e, especialmente, professor e aluno. Entre todas as teorias, escolho a Junguiana para tal fundamentação, pode ser citada informalmente como não dual, é profunda, valoriza as relações interpessoais e expressões somáticas e místicas.
Apresentação da Teoria Junguiana – Raquel Peres
A psicologia analítica foi desenvolvida por Jung com base em inúmeros estudos acerca de diversos temas como Psicologia, Antropologia, Mitologia, Religião, Alquimia. Ele elaborou a descrição de um aparelho psíquico, que utiliza a própria consciência para abranger e compreender os fenômenos do inconsciente, uma vez que esses só são manifestados através da consciência.
“A psicologia como ciência relaciona-se, em primeiro lugar, com a consciência; a seguir, ela trata de produtos que chamamos psique inconsciente, que não pode ser diretamente explorada por estar a um nível desconhecido, ao qual não temos acesso. O único meio que dispomos, nesse caso, é tratar os produtos conscientes de uma realidade, que supomos originários do campo inconsciente (…) A psique inconsciente, (…) se exprime através de elementos conscientes e em termos de consciência.” (Jung, 2011, p.20)
O ego é o centro da consciência, mas trata-se de um complexo, sendo o complexo um nó de energia, mas o mais próximo e valorizado que conhecemos. O ego é um elemento da consciência, que engloba conteúdos diferenciados. Determinado conteúdo só atinge a consciência se relacionar-se ao ego, mas o complexo do ego recebe influência do Self, e de conteúdos indiferenciados do inconsciente.
O eixo ego Self é a expressão da individualidade de uma pessoa. O ego é o centro do consciente enquanto o Self é o centro ordenador da totalidade psíquica e fonte de todas as imagens arquetípicas. Self é o núcleo percipiente, o atma.
A psicologia analítica já recebeu o nome de psicologia dos complexos. Logo, ampliar sua significância é importante. Complexos são possibilidades a serem integradas e por trás de cada complexo há um arquétipo, o qual se expressa pela sua imagem, a imagem arquetípica. Os deuses e mitos são arquétipos.
O Self é um arquétipo, assim como a persona, a anima, o animus, a sombra e etc.
Sobre os arquétipos;
“Um agrupamento definido de caracteres arcaicos, que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore. Alguns desses motivos mais conhecidos são: a figura do herói, do Redentor, do dragão, a baleia ou o monstro que engole o herói.” (JUNG, 1972, p.60)
A persona é o arquétipo relacionado à máscara utilizada para o Eu apresentar-se ao mundo, a máscara a ser vestida varia conforme a cultura e o contexto. A anima e o animus são os binários masculino e feminino, apresentam-se em diversas imagens arquetípicas como, por exemplo, Shiva e Shakti.
Anima é a representação psíquica da mulher, a feminilidade inconsciente formada a partir das experiências com mulheres (mães, irmãs, professoras etc.). Já o animus é a personificação do principio masculino formada a partir das experiências com homens e com o masculino da mãe. Ambos funcionam de dentro da psique humana de maneira inconsciente.
Os complexos vêm à consciência, são possibilidades a serem ou não integradas. Logo, os arquétipos também. Sendo a sombra um dos arquétipos, ela pode ou não ser integrada através do confronto ego inconsciente.
“Tudo o que conheço, mas não penso num dado momento, tudo aquilo de que já tive consciência mas esqueci, tudo o que foi percebido por meus sentidos e meu espírito consciente não registrou, tudo o que, involuntariamente e sem atenção, sinto, penso, relembro, desejo e faço, todo o futuro que se prepara em mim e que só mais tarde se tornará consciente, tudo isso é conteúdo do inconsciente.” (Jung, 1984, p.185)
Se até mesmo a consciência é um produto do inconsciente, qual seria seu limite? Sendo o inconsciente o mundo invisível, torna-se impossível responder com coerência, mas dispomos das manifestações do inconsciente, da sincronicidade, dos sintomas, dos sonhos e das expressões artísticas para confrontá-lo. Dispomos do yoga para expandir tais manifestações.
Jung estuda e produz literatura significativa acerca da temática energia, tendo como precedentes Freud, que utiliza o termo libido, Von Grot, Lipps, Stern e Schiller. Carl Gustav Jung elabora um conceito de energia psíquica embora a expressão já tivesse sido utilizada, por exemplo, por Schiller.
Freud associa o termo libido a uma suposta energia psíquica, a energia das pulsões sexuais. E a pulsão é para ele uma ideia abstrata, um conceito fundamental convencional necessário à psicologia.
Para Grot; “o conceito de energia psíquica é tão legítimo na ciência quanto o da energia física, e a energia psíquica tem igualmente medidas quantitativas e formas diferentes como a física”. (JUNG, 2012, p.16)
O termo libido atribuído por Jung é coincidente a energia física mecanicista e ao mesmo tempo ao ponto de vista energético.
“Energia psíquica é a possibilidade inerente aos próprios processos de atualizar essa força neles mesmos. Diferenciar força de energia é conceitualmente imprescindível, pois a energia é propriamente dito um conceito que não existe objetivamente no fenômeno em si, mas que existe sempre só na base específica da experiência, isto é, na experiência a energia está sempre especificamente presente como movimento e força, quando atualizada, e como situação ou condição, quando em potencial. Quando atualizada, a energia psíquica aparece nos fenômenos dinâmicos específicos da alma, tais como instintos, desejos, vontades, afeto, atenção, rendimento no trabalho etc., que são justamente forças psíquicas. Quando em potencial, a energia aparece nas conquistas específicas, nas possibilidades, atitudes etc., que são condições.” (JUNG, 2012, p.24)
Pode-se concluir, sobre energia, que, segundo Jung, o indivíduo nasce e se desenvolve com o mesmo quantum de energia psíquica. Entretanto, a energia pode se manifestar e estar mais concentrada em diferentes locais da psique, em diferentes funções psíquicas, nos complexos, conforme o momento da vida, estímulo ou experiência. Jung também expande o termo libido para a experiência ou potencial de qualquer vivência, seja ela sexual ou não. A energia realiza diferentes movimentos como: progressão, regressão, extroversão e introversão. A progressão, não está relacionada à evolução, mas à expansão da consciência; a regressão, é um movimento relacionado ao inconsciente; a extroversão, é a energia direcionada para o mundo afora, e a introversão, para o universo pessoal.
Pode-se concluir que o movimento da libido é tridimensional. Ao introverter pode-se estar progredindo ou regredindo. Da mesma forma que ao extroverter, as condições do meio podem influenciar uma progressão ao consciente ou uma regressão ao inconsciente.
A sombra é outro arquétipo e aspecto inconsciente. É constituída por conteúdos não desenvolvidos como: características desagradáveis, que podem ser projetadas em outrem, conteúdos criativos e até partes positivas de uma personalidade a se desenvolver; é todo o material reprimido ou não aceito pelo ego, nela estão presentes conteúdos incompatíveis com a persona.
O perigo é que a consciência egóica se identifique exclusivamente com a persona, pois quanto mais identificado com ela, mais o sujeito reprime a sombra, que vai ganhando força. E a força do inconsciente é vasta, dominadora e facilmente confundida com o destino.
Segundo Jung, a sombra tem a peculiaridade de ser identificada apenas quando projetada em outro sujeito, quando isso ocorre os indivíduos apresentam-se misturados, mas o sujeito primário, emissor de sombra, só se incomoda com o outro, a tela de projeção da sombra, naquilo que lhe é sombrio.
É na tensão ego e sombra, confronto ego inconsciente, que é possível a ampliação da consciência e assim a busca da totalidade e da individualidade, ou seja, do processo de individuação.
A psicologia analítica tem como foco principal o processo de individuação, que é, por sua vez, o grande objetivo da análise em si. Análise ou processo terapêutico é um mergulho no universo invisível do inconsciente com o objetivo de elaborar e entrar em contato com novos conteúdos independentemente da grande meta. É notável como o yoga pode ser o processo terapêutico em si.
Individuação significa tornar-se um indivíduo através da integração consciente inconsciente. Quanto maior a expansão da consciência mais o sujeito, que estiver no processo, se diferencia dos outros, ou seja, mais o conceito de individualidade lhe cabe; o sujeito torna-se uma unidade separada, indivisível, um todo compatível com aquilo que lhe cabe realizar no mundo.
Pode-se dizer que atender ao processo de individuação é a finalidade de toda a teoria de Jung.
“O conceito de individuação desempenha papel de somenos em nossa psicologia. De modo geral, pode-se dizer é o processo de constituição e particularização da essência individual, especialmente, o desenvolvimento do indivíduo- segundo o ponto de vista psicológico, como essência diferenciada do todo da psicologia coletiva. A individuação é por tanto, um processo de diferenciação cujo o objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual.” (JUNG, 1976, p. 525)
Em outras palavras, a teoria Junguiana aborda a inter-relação dos opostos mente e corpo, feminino e masculino, luz e sombra, consciente e inconsciente. Relações binárias essas, que ocorrem no próprio confronto ego inconsciente, confronto esse que se dá através de experimentações, vivências e do processo analítico. Essa integração dos opostos pode ser encontrada em outras filosofias e tradições como, por exemplo, no estudo dos chakras, tendo em vista que a pulsação energética do primeiro ao sétimo chakra pode ser considerada uma jornada. É possível traçar um paralelo entre o processo de individuação e o movimento energético do primeiro ao sétimo chakra. Ambas as jornadas podem ser relacionadas à jornada do Self e a um processo que envolve determinado potencial energético. A teoria também converge com a valorização das experiências que a filosofia do Tantra abrange. A individuação significa tornar-se um indivíduo através da integração consciente inconsciente, que seria, no Tantra, a comunhão de Shakti com Shiva, Prakriti com Purusha.


