Corpo e psique: uma colab com Isadora Sandeville

Para nós, sempre foi fonte de fascínio poder observar a constante dialética entre o corpo e a mente, o denso e o sutil, e reconhecê-los como apenas faces de um mesmo. No paralelo psicologia e yoga, o segundo em uma visão (darsana) filosófica não dualista (advaita), o ser humano é compreendido como um microcosmo do macrocosmo, uma parte ou unidade da totalidade múltipla. Nas duas linhas de estudo nos foram dadas ferramentas para análises e nos permeia o incômodo de viver em uma sociedade profundamente dual e cindida, na qual existe uma separação contundente entre corpo e mente, entre um e o outro, que resulta em uma grande desvalorização do corpo e da função sensação em prol da mente e da função pensamento.

Refletimos:

“O corpo é comumente percebido como uma dimensão puramente utilitária destituindo-o de seu sentir, “medicalizando” suas manifestações, o que entendo ser fonte de sofrimento psíquico e de alienação de si. Em uma visão não dualista, o corpo pode ser um instrumento de investigação e integração com o natural, o outro e os processos alquímicos dos encontros, interações. Assim, na tradição yoguica me deparei identificada com o chamado tantra monista, linha filosófica de pressuposta origem no norte da Índia, por ser um movimento de valorização do encontro do individuo com o todo por meio dele mesmo e do corpo como um veículo para experienciar a realidade una, da qual somos parte e reflexo.

O abafar da razão que, por sua vez, também é exprimida pelo corpo sempre foi algo que me gerou grande desconforto e questionamentos. Lembro de uma aula na qual o professor falou que “psicossomática é um pleonasmo” e me recordo do impacto que essa frase teve, em termos de amparo teórico, sobre descobertas tão pessoais que eu vinha experienciando em minhas práticas corporais de yoga. Eu estava sentindo a nível individual a indissolubilidade da conexão corpo e mente enquanto um todo, completo em si. Percepção que provavelmente se deve ao meu entendimento de movimento como símbolo, como linguagem do inconsciente. O mover, como um ato de dar forma – por meio do denso, para compreender o sutil, para reconhecer a si mesmo em sua totalidade tem potencial alquímico. É como um circumambular em torno de si, a partir de si.

Por meio de minhas vivências na psicologia analítica e no yoga não dualista que valoriza o corpo, entendo-o como um inteiro dotado de energia psíquica, que pulsa e clama por integração. Quando penso sobre a função transcendente não apenas como um resultado da união de conteúdos conscientes e inconscientes, abro espaço para uma forma de integração psicossomática, o reconhecer da totalidade na unidade. Para mim, a individuação pode apenas se dar a partir dessa integração, e a aproximação do self é um caminho a ser trilhado por meio do corpo, um caminho de aproximação do inato, daquilo que é instintivo, que nos permeia e transcende.”

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