Yoga pode ser considerado uma disciplina ou pedagogia (upāya), sobretudo é uma filosofia, que outras tantas disciplinas como história, antropologia, teologia e filosofia tratam. Acredita-se que o yoga tem origem sul asiática há mais de 5000 anos, durante o neolítico, na civilização harappeana, também conhecida como civilização do Vale dos Índus, localizada no atual Paquistão.
George Feuerstein, em a “Tradição do Yoga”, descreve 5 períodos na história do yoga:
Yoga védico:
- Entre 7000 anos AEC ou 500 anos AEC;
- Práticas ligadas à rituais para alcançar o mundo dos espíritos;
- Época dos grandes textos dos Vedas.
Yoga pré-clássico:
- Entre 2000 anos AEC e 200 anos EC;
- Práticas de meditação profunda para transcender o corpo;
- Época do nascimento de Gautama, o Buda;
- Época dos Upanishads e do Bhagavad Gita (parte do épico Mahabharata).
Yoga clássico:
- Entre 100 anos da EC e a idade média, o Hatha Yoga medieval;
- Práticas principalmente de meditação;
- Época dos Sutras de Patanjali.
Yoga pós clássico:
- Práticas de meditação e físicas onde o foco é o presente e não o futuro ou vida após a morte;
- Surge o hatha yoga propriamente dito em textos como: Hatha Yoga Pradipika e Gheranda Samhita.
Yoga moderno:
- Época atual;
- Marcado pela vinda de Swamis e gurus para o ocidente no movimento do revivalismo hindu na Europa e EUA;
- Ampla divulgação do Hatha Yoga no ocidente pela linhagem Krishnamacharya, entre outras.
Hatha Yoga é o yoga vigoroso, o foco do presente artigo, é o yoga do corpo físico, cujo objetivo supremo éidêntico ao de todos os caminhos do yoga, transcender a consciênciaegóica e realizar a si mesmo ou, em outras palavras, expandir a consciência, realizar Śiva. Na prática, o Hatha apresenta técnicas para elevar o potencialdo corpo, para que ele seja capaz de suportar a força da expansão, do re-conhecimento, da libertação ou até da transcendência.
A iluminação do homem é, para muitos, a iluminação do corpo e mente por inteiro. As respostas neurológicas também traduzem para o corpo o que os estados místicos da consciência manifestam. Aliás, é nessa valorização do corpo que Hatha Yoga converge com o tantra, os praticantes de ambos têm o interesse de realizar a si mesmo em corpo saudável, no qual possa gozar do universo manifesto nas suas diversas dimensões.
O período formativo de Hatha Yoga foi entre os séculos XI e XV da era comum, talvez tenha sido o último yoga a ter sido revelado e antes dele os Vedas, Upanishads, Sutras e Agamas [tântricos] organizaram conhecimentos yoguicos diversos e preciosos. Enfim, apesar das raízes amplas sul asiáticas do yoga, podemos dizer que o Hatha Yoga é uma confluência de formas ascéticas e tântricas, inclusive do tantra budista, além de um encontro de filosofias não dualistas Śaivae do Advaita Vedanta.
Segundo James Mallinson, um estudioso de sânscrito e conhecido por suas publicações de Haṭha Yoga,foi nos textos tântricos budistas que aparecem as primeiras referências ao Hatha, com as descrições de bandhas e mudrās.
No entanto, o Hatha Yoga Nātha medieval tinha muito em comum com a filosofia Kaulika do Abhinavagupta, que é uma vertente do que hoje conhecemos como Shivaísmo da Caxemira. Isso não significa que os Nāthasda atualidade sejam praticantes assíduos de Hatha Yoga, muito menos da forma performática e ginasta que é transmitida no ocidente, e nem quer dizer que os budistas não influenciaram profundamente o Hatha Yoga e até textos anteriores, como os Sutras de Patañjali. De uma forma ou de outra, é possível que algumas das práticas dos Nāthas ainda preservem algo do Hatha medieval.
Como já está posto, no que envolve as origens das práticas de Hatha Yoga, com āsanas, mudrās, pranayamas e outras técnicas, existem controvérsias e é cabível dizer que muitas informações se perderam com o desenvolvimento da sociedade indiana, inclusive, ou especialmente, durante a colonização. Por exemplo, alguns textos Vaisnavas e provenientes do Jainismo, anteriores ao século X da era comum vem sendo traduzidos.
Śiva Saṁhitā, Gheraṇḍa Saṁhitā e Haṭha Yoga Pradīpikā são considerados os três principais tratados clássicos sobreviventes do Haṭha Yoga chamado medieval. Sobre esses, discorro um pouco mais:
O primeiro é considerado o mais abrangente tratado sobre Haṭha Yoga, envolvendo também aspectos filosóficos e, embora a autoria seja desconhecida, o texto é narrado por Śiva que se dirige à Parvatī. O texto é datado, por alguns estudiosos, do século XVII da era comum, enquanto outros, como James Mallinson, datam o texto entre 1300 e 1500 da era comum. O texto conta com um resumo da filosofia não-dual do Vedānta bem como a discussão sobre yoga, a importância de um guru e alguns āsanas, mudrās e siddhis (poderes) atingíveis com o yoga e o tantra.
O segundo é um manual do século XVII que consta de 351 estrofes distribuídas em sete capítulos. O ensinamento apresenta-se em forma de diálogo entre o sábio Gheraṇḍa e seu discípulo Chānḍa Kāpāli. Gheraṇḍa ensina uma disciplina de sete passos (sapta-sádhana), descreve trinta e duas posturas (āsanas) e vinte e cinco “selos” (mudrās), além de discorrer sobre técnicas de purificação (śodhana).
O terceiro é o Haṭha Yoga Pradīpikā, ou Luz sobre Haṭha Yoga, que descreve práticas, incluindo 16 posturas e pranayamas. Se trata de um clássico manual sânscrito do século XV escrito por Svāmi Svātmārāma, que liga a linhagem ao Matsyendranāth dos Nāthas. Sendo Nāthas os ascetas e/ou pais de famílias, da linhagem Nātha Sampradāya que introduziram Kundalini e Laya Yoga (algumas meditações) ao Hatha Yoga e outros métodos tântricos ao Hatha ascético.
Cito algumas das posturas descritas nos dois últimos textos mencionado:
- Gomukasana,
- Danurasana,
- Salabasana,
- Pashchimottanasana,
- Kurmasana,
- Virasana,
- Ushtrasana,
- Bhujangasana,
- Siddhasana,
- Savasana.
E ainda, outros textos de Hatha Yoga medieval que apresentaram e descreveram asanas:
- Yogacintamani,
- Hatharatnavali,
- Yogasanamala,
- Hathabhyasapaddhati,
- Jogapradipyaka.
No yoga moderno e na contemporaneidade, vemos muitos defendendo o Hatha Yoga como uma tradição exclusivamente Nātha, outros, relacionando Hatha Yoga diretamente à textos anteriores de meditação como os Sutras de Patañjali, mas o mais importante é ampliarmos todas as fontes e saberes do yoga honrando sobretudo sua ancestralidade. E como podemos perceber, as raízes, origens e textos se revelam inúmeras,os textos clássicos de Hatha Yoga não são necessariamente Nāthas.
Ainda na contemporaneidade do Hatha Yoga, existem as expressões “hatha yoga clássico” para descrever práticas em espaços de yoga, que também oferecem “ashtanga vinyasa yoga”, entre outros estilos de prática de asanas. Então, encerro o presente texto com a popular linhagem de Krishnamacharya. Ele ensinava Hatha Yoga na Índia para discípulos, dentre eles: Iyengar, que fundou em Pune sua escola e método, que ganhou seu nome ou a designação de “yoga com props”; Patabi Jois, que fundou em Mysore sua escola e 8 sequências fixas de “ashtanga vinyasa yoga”; e Desikachar, seu filho, que sistematizou um atendimento mais individualizado com “viny yoga”, que junto de sequências fixas e outras influências nos trouxe ao popular e variado “vinyasa”.


